Trilhas Urbanas
Eu fiquei durante um tempo pensando em como usar a bicicleta em São Paulo para me deslocar. Já usei diversas estratégias. Mas estou vendo que o melhor mesmo é encarar a cidade como trilhas, trilhas urbanas. Pensar nos desafios que temos buraco a buraco, procurando caminhos mais tranquilos (algumas vezes mais longos e mais lentos).
Estou procurando fazer isso, agora. Vamos ver se consigo manter a regularidade. Semana passada estive em Santos e pude experimentar o prazer de andar numa ciclovia sem ter que ficar me preocupando com os ônibus e taxis e carros e buzinas. Vejo aqueles vídeos de Copenhague com suas zilhões de ciclovias e olho pra São Paulo com compaixão.
Olho pra São Paulo e leio que a China se transforma no maior mercado de carros do mundo, justo a China, que por tantos anos foi o país das bicicletas. E pensar que hoje, ser antenado, futurista e de bom senso é pensar em como andar menos de carro. E que desenvolvimento quer dizer mais bikes e mais transporte público de qualidade e não zilhões e zilhões de carros nas ruas (parados).
Eu gosto de carros. Acho muito bom ter um (em casa temos um só), mas não me sinto escravo dele. Acho muito legal me sentir civilizado ao andar de Metrô e ônibus de boa qualidade (existem alguns). Estou desenvolvendo uma teoria a respeito de transportes públicos, especialmente ônibus: eles não têm ar condicionado porque quem projeta as leis de transporte na cidade não usa ônibus.
Basta andar no Metrô dos novos carros para perceber como é bem melhor um ar condicionado. É algo tão simples, né? Me lembro quando morava no Rio de Janeiro no final da década de 80 e usava, algumas vezes, os frescões. Um luxo necessário quando se pensa em megalópoles.
Um luxo que qualquer secretário de qualquer, mas qualquer mesmo, secretaria de qualquer cidade tem. Em tempos de aquecimento global seria um incentivo para que sujeitos que ainda precisam usar terno e gravata nos trópicos deixassem seus carros em casa.
Mas não é só: não temos muitas ciclovias em São Paulo. No Guarujá, por exemplo, a ciclovia é apenas uma faixa pintada no chão com sinalização. E funciona. Algo mais simples que faixa de ônibus. Tão simples que, nos finais de semana, existem algumas ciclovias alternativas ligando os parques. Também nos finais de semana se pode colocar a bike no Metrô durante todo o dia.
Eu ainda espero ver nas propagandas de venda de edifícios novos algo do tipo: com ciclovia na porta; com ônibus equipado com ar condicionado em frente ou algo parecido. Por enquanto, o que predomina são as cinco vagas na garagem.
Hoje chove novamente em São Paulo, graças a Deus, depois daquele calorão. E percebo que o pneu dianteiro da minha bike está furado. Ainda estou no escritório, mas estou feliz. Feliz porque, pelo menos por mais um dia, eu consegui fazer a minha parte. Hoje, nem ônibus usei. Sou um ser carbono zero.