Empreendedorismo Social Corporativo

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Dr. Heiko Spitzeck, professor e ativista

Criando valor social e financeiro a partir das grandes corporações

Quando o professor e ativista Heiko Spitzeck desembarcar em julho no Brasil com seus mais de 30 estudantes da School of Management do The Doughty Centre for Corporate Responsability, da Cranfield University de Londres, vai direto a uma cooperativa de catadores de lixo. Quer mostrar a esses jovens MBAs que qualquer decisão empresarial tem consequências e quem pensa em um mundo mais sustentável tem a obrigação de perceber o resultado de suas atitudes.

Catadores são empresários por necessidade. Quero mostrar aos estudantes a vida dessas pessoas. Entender, conviver. E assim encontrar soluções que tragam mais dignidade a eles. As cooperativas, por exemplo, são uma forma de dar mais poder aos catadores.

Esse é o estilo de trabalho desse professor mente aberta. Alemão, pós-graduado na Suiça, dá aulas em Londres para estudantes de diversas partes do mundo. Casado com uma brasileira de família japonesa, está se transferindo para São Paulo, onde pretende continuar provocando cabeças de jovens dispostos a deixar de lado velhos conceitos.

Sua linha de investigação mais recente são os empreendedores sociais corporativos (intrapreneurship). Pessoas que, mesmo dentro das organizações, são capazes de fazer a transformação positiva e necessária para a construção de um mundo mais justo e humano. Empreendedores sociais corporativos conseguem produzir uma saudável mistura de empreendimento ao mesmo tempo social e lucrativo a partir de ações criativas.

O doutor Heiko Spitezeck e seus colegas John Elkington e Maggie Brenneke estão estudando o assunto. Pesquisando e recolhendo dados para a futura publicação de um artigo científico que pretende colocar uma luz mais clara sobre a questão. Numa conversa que tivemos no HUB São Paulo, contou um pouco do que já foi levantado.

Operação bancária no celular

Susie Lonie e Nick Huges, da companhia telefônica britânica Vodafone, encontraram uma oportunidade de oferecer serviços bancários via celular no Quênia, ao perceber que enquanto apenas 20% da população tinha conta em bancos, pelo menos 54% contava com acesso a telefones celulares.

A Vodafone, junto com a operadora local Safaricom, criou o serviço M-Pesa — M (mobile) e Pesa (dinheiro, na língua local). Em menos de um ano, mais de 200 mil pessoas aderiram ao novo sistema, que funciona de forma realmente simples: via celular, uma pessoa pode transferir dinheiro para outra pessoa em qualquer lugar do país. O sistema também é usado por instituições de microcrédito do Quênia para emprestar dinheiro e receber pagamentos.

Susie Lonie e Nick Huges são exemplos de empreendedores sociais corporativos. Pessoas que trabalham não apenas por dinheiro, mas que realmente colocam sua energia e motivação na busca de soluções para a transformação positiva. Heizo Sptezeck e seus colegas conversaram com mais de 70 empreendedores sociais corporativos de diversas partes do mundo.

E todos eles mostraram uma característica em comum: enxergaram oportunidades nos desafios que o planeta enfrenta.

O poder na mão das mulheres

Outra iniciativa relatada por Heiko Spitezeck partiu de Vijay Sharma, da Hindustan Unilever, na Índia. Ela criou o programa Shakti (poder), que deu oportunidade para que mulheres das pequenas vilas rurais se transformassem em microempresárias revendedoras de detergentes, sabonetes e outros produtos da Hindustan Unilever.

O programa é um sucesso. A previsão é que de ao final de 2010, sejam mais de 100 mil empreendedoras atendendo cerca de 500 mil vilas indianas. O programa não apenas ampliou as receitas da Hindustan Unilever, mas deu dignidade a milhares de mulheres, como Susheela (ouvida pelos pesquisadores):

Quando as pessoas me vêem, elas se aproximam e me chama de Shakti amma. Hoje eu sou alguém.

Empreendedores sociais corporativos trazem para dentro das organizações o valor social e rentável de novos negócios. Onde outros enxergam desafios, eles enxergam oportunidades. E ter desafios sociais em mente é um grande catalizador de inovações.

O exemplo de Yunus

Quando comparados com iniciativas como a Muhammad Yunus (criador do Grameen Bank e prêmio Nobel da Paz de 2006), os empreendedores sociais corporativos tem a vantagem de poder usar a estrutura já existente da organização em que trabalham sem precisar montar uma estrutura própria.

Empreendores sociais corporativos fazem a conexão clara entre a inovação social e o negócio. Pensam tanto nos benefícios para as pessoas atendidas quanto no crescimento de vendas, administração de custos e melhoria do produto. Mas, da mesma forma que empreendedores sociais que atuam fora de empresas, eles se concentram na criação de valor social com o maior impacto possível.

Para que os empreendedores sociais possam ter sucesso em sua atuação é necessário o suporte da organização. Sem que a direção da empresa esteja engajada, a organização facilmente volta seu rumo para o usual lucro pelo lucro. O exemplo dos empreendedores sociais corporativos é uma fonte inspiradora para outros funcionários. Faz com que mais pessoas troquem ideias e pensem a respeito do que pode ser feito para melhorar a vida de quem precisa e, ao mesmo tempo, garantir a boa rentabilidade da empresa.

O desafio para as empresas é encontrar meios para garantir que os empreendedores sociais corporativos consigam desenvolver suas estratégias e ajudá-los a trazer essas inovações para o mercado.

Heiko Spitezeck explica que as novas gerações de estudantes das escolas de negócios precisam estar mais atentas para a responsabilidade das empresas na inovação social, pois cada dia mais os consumidores buscam algo além de preços baixos e empregados querem algo mais que salário.

As empresas terão que explicar o valor social de sua existência.

Os desafios sociais, como a pobreza, a perda dos ecossistemas e questões relacionadas à saúde, são urgentes e numerosas, mas podem ser encaradas como oportunidades para a inovação social. Empreendedores sociais corporativos, atuando junto com a infra-estrutura das organizações, são capazes de criar impactos positivos em larga escala, tanto do ponto de vista social como financeiramente.

Se as organizações querem se beneficiar desse potencial criativo, devem prover os empreendedores sociais corporativos de um ecossistema que os empodere e os habilite a aprender com as próprias falhas, gerenciando suas ideias e permitindo que criem impactos positivos de larga escala.

A pesquisa de Heiko Spitezeck e seus colegas John Elkington e Maggie Brenneke ainda está em andamento. Eles procuram novos exemplos, boas histórias e inspirações também no Brasil.

Quem quiser colaborar, entre em contato com Heiko Spitezeck pelo email heiko.spitzeck@cranfield.ac.uk

Pode escrever em português. Spitezeck fala português fluentemente, além de ser um cara muito bem humorado e interessado.

Outros contatos

Dr. Heiko Spitzeck
Cranfield University
Doughty Centre for Corporate Responsibility
Tel: 0044 (0) 1234 751122 ext 3219
www.doughtycentre.info

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