A dimensão do amor nas empresas
8 de Março de 2010 @ 21:41 por flavio gut
Eunice Brito: “O amor é o reconhecimento da existência do outro”.
Foto: Marcos Fernandes
Falar de sustentabilidade é falar de amor nas organizações
Por Flavio Gut
Todos nós já experimentamos as virtudes que o sentimento de amor nos inspira. Pela pessoa amada, seja ela um filho, uma esposa ou namorada, nos dedicamos, abdicamos de nossa vaidade e soberba. Mas será que esse sentimento, claro de que outras maneiras, não nos pode beneficiar em outras espécies de relações, com nossos vizinhos ou colegas de trabalho, por exemplo?
É preciso falar da dimensão do amor nas empresas. Falar de amor nas organizações é falar de sustentabilidade socioambiental e relacional. Esse é o pensamento da psicóloga e consultora de empresas, Eunice Fernandes de Oliveira Hilsdorf Brito, diretora-fundadora da Semilla Consultoria e Desenvolvimento de Recursos Humanos, que tem longa experiência no atendimento de empresas familiares, planejando a sucessão e a profissionalização.
Nesta entrevista, Eunice Brito mostra que, em primeiro lugar, é preciso pensar na sustentabilidade pessoal e social e a partir daí ampliar para o macro. Sustentabilidade e diversidade nas relações é o que pode ampliar a consciência do homem para o meio ambiente na sua forma mais ampla possível.
Em seu trabalho você fala da linha da dualidade entre o poder e o conhecimento? O que é isso?
A dualidade entre o poder e o conhecimento é a dimensão onde o ser humano vive. A escravidão, a exploração e todos os relacionamentos humanos, seja na relação entre pessoas ou no nível das nações, acontecem nessa dimensão. É nessa dimensão horizontal que se dá a luta entre o poder o conhecimento. É a dualidade humana. Evolução-involução, vida-morte. Essa é a dimensão da dualidade. Traz a limitação. É uma dimensão entre dois polos: poder e o conhecimento.
Mas por que, justamente, uma polaridade entre o poder e o conhecimento?
Porque são as principais facetas do desafio humano. Porque o ser humano busca o poder pra se afirmar. O poder é uma tentativa, uma ilusão do homem de achar que pode manter o seu contorno, a sua própria identidade, sua individualidade.
O homem acredita que com o poder pode se tornar semelhante ao criador. Que o poder vai dar a ele o controle de vida e morte. Por exemplo, a medicina traz longevidade. Hoje temos mais perspectiva de vida porque a medicina tem o conhecimento. Isso efetivamente nos traz essa sensação de domínio e poder. Poder sobre a vida. Sobre a natureza.
E como o amor pode equilibrar poder e conhecimento?
Amor pode ser traduzido pelo reconhecimento da existência do outro. E esse outro pode ser um outro ser humano ou a natureza. A dimensão da dualidade trouxe o controle da subsistência da Humanidade no início, mas também desviou o homem e trouxe a sensação de que ele podia mais do que tudo, do que planeta. O amor mostra que o homem é co-criador do que se manifesta. Quando um homem reconhece que a verdade do outro pode ser tão boa quanto a dele, essa dinâmica se dá através do amor.
Seres humanos existem como peças de um grande móbile. E uma peça que se mexe altera todas as outras. É um móbile global. Essa consciência vem caminhando. A humanidade precisou passar pelo processo de poder e conhecimento e, agora, o que se pede é um transcender a essa dualidade (animus-anima) e ir pra dimensão da alteridade. É na alternância da dualidade que encontra a unidade.
O que significa transcender a dualidade animus-anima?
A pessoa vive numa dimensão onde ela se reconhece importante pelo que tem [seja conhecimento, dinheiro, status] e não pelo ser que é. Então, a proposta é sair para a verticalidade e entender de uma forma mais sistêmica. Saber que existe essse movimento entre o poder e o conhecimento, mas existe algo dentro do sistema que gera vida: o amor. O amor, onde habita a criatividade, sensibilidade, compaixão fraternidade é, portanto, o reconhecimento da existência do outro. O outro também faz parte.
É possível pensar desta maneira também em relação a empresas?
Uma empresa que só pensa em si mesma pra manter o poder econômico, não divide e não pensa em desenvolvimento de pessoas, está presa nessa dualidade entre o poder e o conhecimento. E essa dualidade é finita. Ela reduz. O que amplia é quando se inclui a outra dimensão. No reconhecimento da existência do outro existe a empatia.
Eu enxergo a necessidade do outro e isso me faz cultivar programas de desenvolvimento de pessoas ao invés de cortes; o reconhecimento das potencialidades, das competências, e isso gera, por outro lado, o movimento de comprometimento, de participação, de identificação com os propósitos da empresa e a soma disso se traduz em resultados.
Resultados numa relação ganha-ganha. E com isso, se equilibra o movimento sistêmico entre dar e receber e a relação dentro das organizações passa de um estágio competitivo para um estágio cooperativo. E dentro da cooperação é possível abrir para a co-criação, quando o colaborador põe o talento dele a serviço do propósito do grupo.
Gestão participativa pode ser considerada um agir dentro da dimensão do amor?
Dependendo de como isso é feito é uma dimensão que pode conduzir a isso. A própria empresa vai percebendo dentro do sistema dela qual o limite pra isso.
Hoje, a moderna administração ensina que as empresas precisam ser transparentes. Como essa dimensão do amor se encaixa nessa busca?
Os recursos até agora utilizados dentro dos sistemas econômicos, seja no capitalismo ou socialismo, reduziram-se à polaridade entre o poder e o conhecimento. Nos sistemas vigentes, o indivíduo é reconhecido pelo que ele produz. Os sistemas, inclusive de reconhecimento, são pautados basicamente naquilo que a pessoa produz.
Mas cada vez mais, o rei está nu. A gente vê isso nos regimes políticos e nas organizações. Vê aqui no Brasil.. As empresas precisam se transformar e reconhecer na sua missão o valor da cooperação e co-criação.
E é a prática desses valores no cotidiano, através do planejamento das relações que a empresa estabelece com seus stakeholders, que faz com que as coisas fiquem mais transparentes. Isso cria uma unidade para o negócio, que ganha força e que se traduz em sucesso. O contrário disso, dessa prática, dessa coerência, mais cedo ou mais tarde, conduz as organizações ao insucesso.
Por que isso acontece? Como a transparência entrou na pauta das empresas?
O momento planetário. O momento da humanidade, que passa pela busca dessa coerência entre o que se fala e o que se faz. E dentro dessa coerência está a transparência com fornecedores, clientes, colaboradores e os diversos stakeholders. Não adianta falar de sustentabilidade e ter uma relação de trabalho onde isso não é aplicado aos colaboradores. Ou falar de sustentabilidade quando a extração da matéria-prima passa pela exploração de quem está na floresta. Isso está cada vez mais sendo denunciado.
É como se o movimento evolutivo da humanidade não estivesse mais comportando essa linha de ação. Está empurrando e cada vez diminuindo mais o espaço para essas espécies de condutas prejudiciais à sociedade como um todo. E estamos vendo que as empresas de mais sucesso real, de mais longevidade, as empresas que tem uma base, hoje incluem efetivamente na sua ação, a sua missão, valores, transparência, participação. Não pensam no lucro pelo lucro. Tem uma visão mais global, de preservação do planeta e de tudo que sustenta a atividade econômica e o ser humano.
Ainda não se fala muito na dimensão do amor dentro das organizações. Alguma empresa já trabalha nesse sentido?
A empresa trabalha na dimensão do amor quando introduz na sua prática dinâmicas de reconhecimento real, da participação, da criatividade, quando ela tem sistemas de reconhecimento transparentes. Uma empresa tem que ter normas e procedimentos, mas esses critérios precisam ficar claros e não podem ser unilaterais.
Não se fala no amor piegas. Mas fala-se do amor na dimensão da consideração, da empatia, da participação e da criatividade. O amor que se revela ao entender que o ser humano não é só aquele que produz, mas uma pessoa que tem essência. Assim como existe um espírito da época, um espírito da empresa, o ser humano também é um espírito.
É nessa dimensão que se pode compreender que o ser humano não é só corpo e mente. Ele é um ser. E nesse ser compõe tudo isso que a gente pode falar na dimensão do amor dentro das organizações.
Como isso se manifesta nas organizações?
Os lugares existem, a hierarquia existe. Existe uma ordem. E dentro dessa ordem é preciso encontrar o lugar de cada pessoa. E dentro dessa ordem a exploracão do capital humano para beneficar o poder de poucos está ficando cada vez mais impossível, desacreditada. As pessoas buscam um outro tipo de relação com o trabalho, elas querem colocar seu potencial a servico de algo em que elas acreditam, pois se não fazem isso, sentem-se infelizes, mais desprotegidas quando acometidas por uma doença, tudo isso culminando com a degradação dos seres humanos, das empresas e do planeta.
Estamos vivendo um tempo em que cresce, aflora uma visão sistêmica e mais global do papel social e das organizações, daquilo que cada um realiza, tanto como indivíduo quanto como parte do todo, da necessidade de mais união. Preocupações importantes e relacionadas com a principal pergunta que nos fazemos diariamente enquanto espécie: onde queremos chegar?
E nas empresas familiares, como se manifesta a dimensão do amor?
Empresas familiares, minha especialidade, são construídas na maioria das vezes por um ato amoroso. Um ato de sustentar a própria família, abrir um campo de aplicação de potencialidades. E, às vezes, ela se perde no caminho das lutas, dos conflitos surgidos nas crises societárias. E, quando isso acontece, a única saída é o amor. Porque no amor cabem as diferenças.
Como cabem diferenças dentro do amor?
Dentro da sustentabilidade. A diversidade que existe na natureza coexiste naturalmente, cada um com a sua função [a formiga com função de limpeza e correção dentro da estrutura da terra. Um elefante também tem a sua função e eles coexistem na floresta]. A cadeia alimentar também faz parte da sustentabilidade.
As diferenças somam. Quando nos resumimos às brigas, quando nossa afirmação depende da anulação da diferença do outro, permanecemos estagnados. Mas se compreendo que o outro é diferente, posso trazer algo de novo para o que eu quero, caminho para o crescimento. O que vale é a intenção das nossas atitudes, de um ato criativo, seja ter um filho, ou uma empresa, ou seja lá o que for. A intenção também tem uma polaridade, negativa ou positiva.
Se crio uma empresa unicamente com a intenção de conquistar poder, ou de dominar pessoas, estou na contramão do que o momento pede. Uma empresa tem, além da função de resultado para seus acionistas, uma função social humana e um papel dentro do sistema, de sustentabildade. Veja, por exemplo, uma empresa que se desfaz de seu lixo sem se preocupar com as conseqüências, está também se prejudicando pelo simples fato de que prejudica a todos, ao ambiente do qual igualmente faz parte.
Transparência: essa entrevista foi feita originalmente para o site www.semilla.com.br como parte do trabalho da Gut Comunicação para a Semilla Consultoria e Desenvolvimento de Recursos Humanos. Por seu interesse e relevância publico aqui no site.


