Quando ser ambientalmente responsável era apenas protestar pela salvação das baleias, bastava assinar os manifestos do Greenpeace e acompanhar as ações espetaculares de seus ativistas via mídia convencional e dormir tranquilo.
Quem não se lembra (muitos jovens não se lembram) do pequeno bote do Greenpeace atrapalhando a vida de baleeiros na tentativa, muitas vezes inútil, de parar com a matança de baleias? Quem não viveu esse tempo basta uma busca no Google.
Acho que as baleias foram salvas. Pelo que sei ainda existem algumas nadando pelos mares do mundo. Mas o mundo mudou um tanto desde a Década de 80. Vivemos o tempo do aquecimento global, das mudanças climáticas. E também a época da participação das pessoas em tudo.
Se olhamos pelo olhar da propaganda, ouvimos que agora é a hora do consumidor. O consumidor está com o poder. Nas empresas é o mesmo discurso: temos que olhar para as pessoas. Não basta apenas pensar em lucro. É preciso uma visão mais ampla, inclusiva, dizem executivos engravatados.
O mesmo consumidor (pessoas) que sofre com as alterações climáticas e cataclismas. No Haiti há zilhões de mortos, lamentavelmente. Zilda Arns, a grande ativista brasileira está entre eles. Uma pena. Nas cidades do mundo, há relatos, nem sempre tão divulgados, de um aumento do número de mortos em doentes em consequência das alterações do clima. E a venda de veículos bate recordes entupindo ruas e poluindo o ar.
O filme Avatar, um manifesto ecológico em 3D (lindo) bate recordes de bilheteria e faturamento. Al Gore é prêmio Nobel, todo mundo diz que quer ser verde. O assunto parece claro pra qualquer pessoa medianamente informada. Mas ser ativo no combate às mudanças climáticas exige algo bem mais complexo do que assinar um manifesto em prol das baleias. Implica em atitudes.
Atitudes que podemos tomar cada um de nós a cada dia. Quando, por exemplo, decidimos deixar o carro em casa, abandonando o conforto e a inércia, e pedalar ou usar o transporte coletivo. Isso não é simples numa cidade como São Paulo, que olha muito pouco para ciclistas e pedestres. Mas é uma atitude.
Uma atitude quando decidimos deixar de comprar um produto comprovadamente agressivo, mesmo que seu preço seja ótimo. Uma atitude quando deixamos de produzir algo nocivo, mesmo que isso implique em diminuir lucros dos acionistas.
Falar de aquecimento global é lembrar que estamos todos conectados. O carbono gerado aqui por um ônibus desregulado tem o mesmo efeito danoso que o avião decolando em Paris. E enquanto líderes globais não chegam a um acordo, a temperatura aumenta junto com o desequilíbrio. Um desequilíbrio que vai muito além de questões ambientais.
Atitude é também tomar decisões radicais, como o Google decidiu tomar. Aboliu a censura ao seu mecanismo de busca imposta pelo Governo Chinês. E, caso existam retaliações, promete abandonar o país, fechar as atividades lá. Esse é um marco, pois a China é o grande mercado e o Google decide sair dele em razão de ataques e de uma política governamental equivocada.
Coerente, mas tardia essa decisão. Afinal de contas, como é que o Google compactua com a censura? Vale apenas o lucro? Parece que por algum tempo foi assim e, agora algo mudou. Louvável decisão. Uma atitude.
Mas o Google, por enquanto, é uma voz isolada. Para outras empresas globais tanto faz se a China é uma ditadura, se não existe liberdade de expressão ou se opositores ao goverrno são assassinados, desde que os trabalhadores chineses continuem a produzir bens de consumo a preços baratos.
Atitude, no mundo de hoje, exige mais. Exige pensar no outro. Exige verdade, exige transparência e coerência. Não vamos mudar o mundo se continuarmos com os mesmo padrões de consumo, com as mesmas e velhas atitudes. Não se chega a um lugar novo usando as mesmas estradas.
A transformação necessária depende de nós. Depende de nossa capacidade de expulsar do poder governantes corruptos e incompetentes; de sair da inércia do carro novo com ar condicionado e da ilusão do novo. E esse nós é EU. É você. Não é apenas o outro.
Atitude é retomar valores de solidariedade, de parceria, de companheirismo e respeito entre os seres. Mas isso de verdade, na prática mesmo. Algo muito além do discurso.
Atitudes simples do tipo lavar os copos que usa; não buzinar no trânsito (quando tiver uma necessidade absoluta de usar um carro); dizer por favor e obrigado. Atitudes que contribuam, definitivamente, para a construção de uma sociedade mais justa e equilibrada que habite um planeta com alguma condição de sobrevivência para todos.
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